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Literacia em Saúde na gestão da doença crónica

A literacia em saúde (ou a capacidade de entender e gerir a própria saúde) é um fator crucial na vida de milhões de pessoas portadoras de doenças crónicas como a diabetes, hipertensão, obesidade, ou insuficiência cardíaca. Para estes pacientes o conhecimento é, literalmente, um elemento fundamental para a gestão diária da sua condição. 

O que implica a literacia na doença crónica?

Quando se trata de lidar com uma doença crónica, estar informado significa mais do que seguir as instruções fornecidas pelos profissionais de saúde. Nesse sentido, saber gerir uma doença crónica implica que o paciente tenha competências de: 

1. Compreensão do diagnóstico e do prognóstico: Entender o que significa a sua doença, de que forma afeta o organismo e o que esperar a médio/longo prazo.

2. Gestão do regime terapêutico:

   a. Medicação: Saber o nome dos medicamentos prescritos, para que servem, a sua dosagem e frequência corretas, assim como possíveis efeitos secundários.

   b. Tratamentos não farmacológicos: Compreender a importância de hábitos de vida saudáveis, como uma alimentação equilibrada ou específica para o tipo de doença, prática de exercício físico, ou necessidade de terapias complementares. 

3. Monitorização da doença crónica: Conhecer formas de monitorização, avaliação e interpretação de determinados parâmetros vitais (glicemia, tensão arterial, peso), reconhecer sinais de alerta e procurar ajuda médica atempadamente, prevenindo complicações. 

4. Articulação com o sistema de saúde: Saber como e quando agendar consultas, comunicar eficazmente com a equipa de saúde e expressar dúvidas. Deve também saber como ter acesso a outros serviços ou cuidados (fisioterapia, nutrição, entre outros), para garantir o apoio necessário. 

O impacto da literacia baixa na doença crónica

A baixa literacia em saúde representa uma barreira significativa na gestão da doença crónica, podendo conduzir a consequências clínicas sérias, como por exemplo: 

1. Menor adesão ao tratamento: O paciente pode não compreender a complexidade do regime terapêutico, levando à falha nas tomas de medicação e à falta de adesão nas mudanças de estilo de vida. 

2. Aumento de complicações: Não saber reconhecer um agravamento da doença (hipoglicemia grave ou crise de asma) pode atrasar a procura de apoio médico, aumentando assim a probabilidade de agravamento da doença. 

3. Maior carga nos sistemas de saúde: As doenças crónicas mal geridas por falta de literacia resultam geralmente em internamentos hospitalares desnecessários e uso excessivo das urgências. 

O papel ativo do paciente informado

A literacia em saúde permite sobretudo que o paciente passe de um recetor passivo de cuidados para um participante ativo e parceiro na gestão da sua própria doença. Este empoderamento permite ao paciente: 

1. Questionar e dialogar sem hesitar pedir esclarecimentos sobre a sua doença,  tratamento ou diagnóstico. 

2. Tomar decisões informadas pesando os prós e os contras das diferentes opções terapêuticas, com base em evidências. 

3. Assumir a responsabilidade diária na gestão da doença crónica e que as suas escolhas diárias são a base do tratamento. 

4. Melhorar a sua qualidade de vida, permitindo assim uma diminuição da ansiedade e um aumento da confiança. 

O papel da comunicação eficaz

Para que a literacia em saúde seja eficaz na gestão de doenças crónicas, é essencial que os profissionais de saúde utilizem uma linguagem clara e acessível: 

  • Evitar o uso de termos técnicos, dando preferência a uma linguagem simples e corrente. 
  • Solicitar que o paciente repita a informação recebida pelas suas próprias palavras, garantindo a sua compreensão. 
  • Pode ser útil fornecer folhetos informativos e/ ou recursos digitais focados nos pontos-chave da gestão da doença crónica em questão. Estes devem ser visualmente claros, apelativos e fáceis de assimilar. 

Conclusão

Em suma, no contexto da doença crónica, o domínio do conhecimento é a melhor terapia, permitindo ao paciente conduzir a sua vida com o máximo de bem-estar e controlo possível. Por conseguinte, com boa comunicação, o conhecimento transforma-se em ação e o cuidado torna-se mais eficaz.

Referências

1. Rabelo, R. et al. (2020). Impacto da Literacia no Tratamento de Doenças Crónicas Não Transmissíveis. Revista Master – Ensino, Pesquisa e Extensão, 8. 
2. Pedro, A. R., Amaral, O., & Escoval, A. (2016). Literacia em saúde: dos dados à ação: tradução, validação e aplicação do European Health Literacy Survey em Portugal. Revista Portuguesa de Saúde Pública, 34(3), 259–275. 
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