A reabilitação cognitiva digital tem vindo a afirmar-se como uma das abordagens mais promissoras no apoio a pessoas com doenças que afetam o funcionamento cerebral, como a demência, o acidente vascular cerebral (AVC), a esclerose múltipla ou a doença de Parkinson. Esta modalidade de intervenção utiliza softwares interativos, jogos sérios e plataformas online para estimular e treinar capacidades cognitivas como a memória, a atenção, a linguagem ou as funções executivas.
O envelhecimento populacional e a crescente prevalência de doenças crónicas têm aumentado a procura por soluções sustentáveis que permitam não só o tratamento como também a prevenção do declínio cognitivo. A reabilitação cognitiva digital responde a esse desafio ao oferecer intervenções baseadas em evidência científica, acessíveis, personalizáveis e, muitas vezes, mais motivadoras para os utilizadores do que os métodos tradicionais em papel (Ge et al., 2018).
Estas tecnologias permitem uma monitorização em tempo real da evolução do desempenho dos pacientes, com feedback imediato e ajustes automáticos de dificuldade, promovendo uma experiência de treino adaptada ao perfil de desempenho individual. Além disso, o acesso remoto a estas plataformas tem revelado grande utilidade, especialmente em contextos de isolamento social, zonas rurais ou países com recursos limitados.
Estudos recentes, incluindo ensaios clínicos controlados, têm demonstrado que o treino cognitivo digital pode ter efeitos significativos na melhoria de funções cognitivas em adultos mais velhos com défice cognitivo ligeiro (DCL), uma condição que pode preceder a demência (Gao & Liu, 2025). Estes efeitos são ainda mais promissores quando os programas são estruturados, supervisionados e aplicados de forma regular, o que reforça a importância de integrar estas tecnologias em estratégias de saúde pública e cuidados continuados.
No entanto, a sua implementação levanta também questões éticas e práticas, como a equidade no acesso digital, a literacia tecnológica e a validação clínica das ferramentas disponíveis no mercado. Apesar disso, a tendência aponta para uma integração crescente destas soluções nos sistemas de saúde, reforçando o papel da tecnologia como aliada na promoção da autonomia e qualidade de vida das pessoas com doenças crónicas.
A reabilitação cognitiva digital não substitui os profissionais de saúde, mas potencia o seu trabalho, promovendo uma abordagem híbrida mais eficaz. Com o avanço da inteligência artificial, realidade virtual e sensores digitais, o futuro da reabilitação cognitiva poderá tornar-se ainda mais imersivo e personalizado (Faria et al., 2020), consolidando-se como uma ferramenta-chave na gestão das doenças crónicas do século XXI.
Terapias Digitais para a Saúde Cognitiva: Benefícios e desafios
As terapias digitais para a saúde cognitiva têm vindo a emergir como uma solução inovadora e promissora para a promoção, manutenção e reabilitação do funcionamento cognitivo em diferentes populações, desde crianças com perturbações do neurodesenvolvimento até adultos mais velhos com alterações cognitivas (Cicerone et al., 2019). Estas terapias utilizam aplicações digitais, plataformas online, jogos sérios e programas de treino baseados em evidência para intervir diretamente sobre funções cognitivas específicas.
Uma das principais vantagens das terapias digitais é a sua escalabilidade. Ao contrário das intervenções tradicionais, muitas vezes limitadas a sessões presenciais, estas soluções podem ser aplicadas a uma vasta população, com maior intensidade e menor custo, permitindo uma resposta mais ampla às necessidades de saúde pública (Kueider et al., 2012). A personalização do treino, (ajustando a dificuldade, duração e foco de acordo com o desempenho do utilizador) é outra das vantagens, promovendo maior envolvimento e eficácia terapêutica.
A literacia digital crescente em todas as faixas etárias tem facilitado a adoção destas soluções, que muitas vezes combinam elementos de gamificação para aumentar a motivação e o compromisso com o tratamento. No caso dos adultos mais velhos, estratégias específicas como interfaces simplificadas, feedback positivo e apoio remoto ajudam a ultrapassar barreiras tecnológicas iniciais (He et al., 2025).
Contudo, apesar dos benefícios evidentes, as terapias digitais enfrentam desafios significativos. Um dos principais é a falta de validação e certificação de muitas das ferramentas disponíveis no mercado, o que pode levar a resultados inconsistentes ou mesmo à utilização de soluções ineficazes (Gomis-Pastor et al., 2024). A investigação científica contínua desempenha, por isso, um papel crucial na validação e padronização destas intervenções.
Outro desafio está relacionado com as desigualdades no acesso à tecnologia. O acesso à internet, à literacia digital e a dispositivos adequados ainda não está garantido para todos, o que pode acentuar disparidades no acesso a cuidados de saúde cognitiva.
Apesar destes desafios, o futuro das terapias digitais é promissor. A sua integração em modelos híbridos de cuidados, combinando o melhor da tecnologia com o acompanhamento clínico personalizado, pode representar um avanço significativo na forma como abordamos a saúde mental e cognitiva. Com o apoio de políticas públicas, regulamentação clara e investimento em investigação aplicada, estas terapias poderão democratizar o acesso aos cuidados na área da cognição, promovendo bem-estar mental ao longo de toda a vida.
Referências
Cicerone, K. D., Goldin, Y., Ganci, K., Rosenbaum, A., Wethe, J. V., Langenbahn, D. M., Malec, J. F., Bergquist, T. F., Kingsley, K., Nagele, D., Trexler, L., Fraas, M., Bogdanova, Y., & Harley, J. P. (2019). Evidence-Based Cognitive Rehabilitation: Systematic Review of the Literature From 2009 Through 2014. Archives of Physical Medicine and Rehabilitation, 100(8), 1515–1533. https://doi.org/10.1016/j.apmr.2019.02.011
Faria, A. L., Pinho, M. S., & Bermúdez I Badia, S. (2020). A comparison of two personalization and adaptive cognitive rehabilitation approaches: A randomized controlled trial with chronic stroke patients. Journal of NeuroEngineering and Rehabilitation, 17(1), 1–15. https://doi.org/10.1186/S12984-020-00691-5/TABLES/5
Gao, Y., & Liu, N. (2025). Effects of digital technology-based serious games interventions for older adults with mild cognitive impairment: a meta-analysis of randomised controlled trials. Age and Ageing, 54(4). https://doi.org/10.1093/AGEING/AFAF080,
Ge, S., Zhu, Z., Wu, B., & McConnell, E. S. (2018). Technology-based cognitive training and rehabilitation interventions for individuals with mild cognitive impairment: A systematic review. BMC Geriatrics, 18(1), 1–19. https://doi.org/10.1186/S12877-018-0893-1/FIGURES/1
Gomis-Pastor, M., Berdún, J., Borrás-Santos, A., De Dios López, A., Fernández-Montells Rama, B., García-Esquirol, Ó., Gratacòs, M., Ontiveros Rodríguez, G. D., Pelegrín Cruz, R., Real, J., Bachs i Ferrer, J., & Comella, A. (2024). Clinical Validation of Digital Healthcare Solutions: State of the Art, Challenges and Opportunities. Healthcare (Switzerland), 12(11). https://doi.org/10.3390/HEALTHCARE12111057,
He, H., Raja Ghazilla, R. A., & Abdul-Rashid, S. H. (2025). A Systematic Review of the Usability of Telemedicine Interface Design for Older Adults. Applied Sciences (Switzerland), 15(10), 5458. https://doi.org/10.3390/APP15105458/S1
Kueider, A. M., Parisi, J. M., Gross, A. L., & Rebok, G. W. (2012). Computerized cognitive training with older adults: A systematic review. PLoS ONE, 7(7). https://doi.org/10.1371/JOURNAL.PONE.0040588,